Atletico 100.
O melhor lance do Atlético não foi num jogo.Foi fora dele. Foi numa derrota.Minto, num empate de um time invicto, o supervice-campeã o do BR-77.Não foi o melhor jogo ou jogada.Mas não teve nada mais atleticano que aquilo: depois da derrota nos pênaltis para o São Paulo, Mineirão e Brasileirão estupefatos pela queda sem derrota de um senhor time de bola, os jogadores baqueados e barreados pela chuva e pela lama se abraçaram no gramado e assim foram ao vestiário.Foi a primeira vez que vi a cena reverente que virou referência.Ninguém estava fazendo marketing (nem existia a tal palavra).Nenhum jogador estava jogando pra galera.Era fato.Time e torcida estavam juntos naquele abraço doído e doido.Como tantas vezes o atleticano esteve junto com o time. Qualquer time.Nada é mais atleticano que aquilo: um time que se comportou como o torcedor.Solidário na dor, irmão no gol.O atleticano é assim: tem a coragem do galo, mas não a crista.Luta e vibra com raça e amor. Mas não se acha o dono do terreiro.Sabe que precisa brigar contra quase tudo e contra quase todos. Até contra o vento, na célebre imagem de Roberto Drummond.Aquela que fala da camisa preta e branca pendurada num varal durante uma tempestade. Para o escritor atleticano, ou, melhor, para o atleticano escritor, o torcedor do Atlético sopraria e torceria contra o vento durante a tormenta.Não é metáfora. É meta de quem muitas vezes fica de fora da festa. Não porque quer. Mas porque não querem.Posso falar como jornalista há 17 anos e torcedor não-atleticano há 41: não há grande equipe no país mais prejudicada pela arbitragem.Os exemplos são tantos e estão guardados nos olhos e no fígado.Não por acaso, o atleticano acaba perdendo alguns jogos e títulos ganhos porque acumulou nas veias as picadas do apito armado.Algumas vezes, é fato, faltou time. Ou só sobrou raça. Mas não faltou aquilo que sobra no Mineirão, no Independência, onde o Galo for jogar: torcida.Pode não ser a maior, pode não ser a melhor, pode até se perder e fazer perder por tamanha paixão, cobrando gols do camisa 9 como se todos fossem Reinaldo, pedindo técnica e armação no meio-campo como se todos fossem Cerezo, exigindo segurança e elegância da zaga como se todos fossem Luisinho.Mas não se pode cobrar ninguém por amar incondicionalmente.O atleticano não exige bola de todo o time. Não cobra inspiração de cada jogador. Quer apenas ver um atleticano transpirando em cada camisa, em cada posição, em cada jogada.Por isso pede para que o time lute.É o mínimo para quem dá o máximo na arquibancada.A maior vitória atleticana é essa. Mais que o primeiro Brasileirão, em 1971, mais que o vice mais campeão da história do Brasil, em 1977.Os tantos títulos e troféus contam. Mas tamanha paixão, essa não se mede. Essa é desmedida. Essa é a essência atleticana.Essa é centenária.Essa é eterna.
Mauro Beting


